Objetivo: O presente capítulo tem como objetivo analisar o fenômeno do epistemicídio no campo da saúde, entendido como o processo pelo qual saberes, práticas e narrativas culturais e identitárias de grupos historicamente marginalizados são silenciados, invisibilizados ou negados. Metodologia: Para atingir esses objetivos, adotou-se uma abordagem qualitativa, reflexiva e bibliográfica, articulando a revisão de literatura com análise crítica das estruturas epistemológicas que orientam a produção do conhecimento em saúde. A metodologia permitiu mapear como práticas institucionais e políticas públicas reproduzem desigualdades, ao mesmo tempo em que sinaliza estratégias capazes de fortalecer narrativas identitárias e reconhecer saberes tradicionais e comunitários como instrumentos legítimos para o cuidado e a promoção da saúde. Nesse contexto, foram examinadas contribuições teóricas sobre epistemicídio, colonialidade do saber, interculturalidade em saúde e decolonialidade, com ênfase em autores e experiências latino-americanas. Destacam-se, entre eles, Boaventura de Sousa Santos, que desenvolve os conceitos de epistemicídio e epistemologias do Sul; Sueli Carneiro, com suas reflexões sobre racismo, gênero e epistemologias afro-brasileiras; Walter Mignolo e Catherine Walsh, que discutem a colonialidade do saber e a interculturalidade; e Ailton Krenak, cujas obras sobre cosmologias indígenas e relações com o cuidado e a vida oferecem uma perspectiva crítica ao paradigma ocidental hegemônico. Resultados e Discussão: Os resultados evidenciam que o epistemicídio tem impactos diretos na desumanização do cuidado, uma vez que a imposição de saberes biomédicos uniformes negligencia dimensões culturais, espirituais e comunitárias do processo saúde-doença. Observa-se também o enfraquecimento de estratégias de promoção da saúde culturalmente sensíveis, que poderiam potencializar a adesão a práticas preventivas e o fortalecimento do autocuidado em comunidades marginalizadas. A exclusão de epistemologias não hegemônicas contribui ainda para a perpetuação de desigualdades sociais, ao reforçar uma lógica que coloca certos grupos como destinatários passivos de cuidados padronizados, em vez de sujeitos ativos de seus processos de saúde. A discussão aponta para a necessidade de integrar perspectivas decoloniais e interculturais nos serviços de saúde, na formulação de políticas públicas e nos currículos de formação profissional, de modo a reconhecer a pluralidade de saberes e a legitimar as narrativas identitárias como elementos centrais do cuidado integral. Considerações finais: Diante do exposto, enfrentar o epistemicídio no campo da saúde constitui um imperativo ético, político e social, essencial para a construção de sistemas de saúde mais equitativos, inclusivos e democráticos. Valorizar saberes plurais e incorporar narrativas identitárias fortalece a humanização do cuidado, promove justiça social e contribui para o desenvolvimento de políticas públicas que respeitem a diversidade cultural. O capítulo conclui que apenas por meio do reconhecimento e da legitimação das epistemologias marginalizadas será possível avançar para uma saúde verdadeiramente integral, capaz de atender às necessidades de todos os grupos sociais de forma respeitosa e culturalmente sensível.